POr Dirce Nunes Cestari
Professora e Psicanalista
(Este documento faz parte de um capitulo de monografia sobre o tema: A formação do Educador como Referencia na Qualidade do Ensino).
A Declaração de Salamanca (1994) demanda sobre Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais dentro do sistema regular de ensino, assumido um compromisso de educação para todos sobre o argumento “que toda criança tem direito fundamental à educação, e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem”.
Neste contexto, designa que ‘o termo "necessidades educacionais especiais" refere-se a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem’.
A psicologia aplicada à educação aborda as questões das necessidades especiais em relação às deficiências ou dificuldades de aprendizagem fundamentada especialmente na teoria piagetiana de construção do conhecimento.
Os cursos de formação de professores abordam em seus currículos disciplinas que valorizam o cognitivo para entender as deficiências de aprendizagem.
"No cenário teórico da Pedagogia, Freud não aparece no rol daqueles que trataram do assunto do conhecimento ou da inteligência”. (VOLTOLINI, 2006)
Seguindo esta linha de raciocínio filosófico sobre educação, a afetividade da criança não é considerada a despeito de um possível sofrimento psíquico. Este sofrimento segundo a teoria psicanalítica de Freud pode ocorrer motivado por forças inconscientes dos mecanismos de defesa do ego em consequência de uma cultura sócio-educacional autoritária e castradora.
Muitas das doenças mentais, em especial as neuroses podem estar relacionadas às repressões derivadas da severidade do ato de educar.
O Bullying, muito presente no ambiente escolar, familiar e social, hoje tão mencionado pelos diversos estudiosos sobre distúrbios emocionais e cognitivos das crianças, é outra condicionante possível de bloqueios na relação ensino aprendizagem, e que também pode ser detectado quando se tem um olhar focado no comportamento afetivo destas nos diferentes ambientes pedagógicos.
Merch (1999 p 24) defende que a sociedade atual é a sociedade dos estereótipos, das crenças prévias, dos preconceitos, e como consequência os educadores estigmatizam seus alunos embasados nesses estereótipos, sendo que a Educação Inclusiva surgiu a partir destas constatações.
Marcados pelos clichês de alunos incapazes, ficam relegados, a mercê do próprio destino ou daqueles que se designam a um olhar solidário e de compaixão.
Ao refletir sobre a formação docente focada nos atuais princípios da educação, é preciso considerar várias atenuantes, dentre elas, as necessidades educativas especiais elencadas pela Declaração de Salamanca, que abrangem não somente as deficiências físicas e biológicas, mas todas as dificuldades de aprendizagem e de ajustamento social.
Em algumas oportunidades, alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem e ou desajustamento social são encaminhados para avaliação psicológica por profissionais especializados. No entanto o entrosamento entre pedagogia e psicologia às vezes são marcados por conflitos, e a função do psicólogo educacional se restringe em avaliar as dificuldades de desenvolvimento cognitivo e de relacionamento em nível estritamente consciente.
A psicanálise oferece subsídios teóricos para avaliar o comportamento humano, seus bloqueios suas dificuldades a partir da essência de sua “alma”, através de manifestações inconscientes, saindo do campo da concretude da teoria cognitivista.
Segundo pesquisadores o ato educativo está relacionado a fatores sociais e psicológicos, portanto a teoria cognitivista dos estágios de desenvolvimento não pode estar desvinculada do campo do emocional, onde o comportamento do sujeito é mobilizado a partir de mecanismos psíquicos inconscientes defendidos pelas correntes de concepção psicanalítica.
Isso não significa que a psicologia aplicada à educação deva ser desconsiderada, mas ao professor deve ser dado o mínimo de conhecimento sobre os conceitos da teoria psicanalítica para subsidiá-lo na abordagem de seu aluno focado não só no modelo médico que compara a criança “à chamada criança normal” (Lacan in Mech,1999) mas, tomando como referencia de potencial, ela mesma, na sua singularidade.
Para avaliar o comportamento da criança sob a ótica de suas condicionantes sociais, é preciso “investigar sua mente” com sensibilidade através do “diálogo” e da observação decorrente das relações interpessoais.
“Quando os educadores se familiarizarem com as descobertas da psicanálise, será mais fácil se reconciliarem com certas fases do desenvolvimento infantil e, entre outras coisas de superestimar a importância dos impulsos socialmente imprestáveis ou perversos que surgem nas crianças”. (BACHA, 2006).
Refletir sobre a importância da psicanálise na formação do professor torna-se cada vez mais urgente, pois permite a possibilidade de valiosas contribuições tanto no campo do conhecimento, quanto na formação da personalidade do individuo, especialmente desmitificando a idéia de que educação e repressão são indissociáveis.
Tudo o que podemos esperar a título de profilaxia das neuroses no individuo se encontra nas mãos de uma educação psicanaliticamente esclarecida”. (BACHA, 2006)
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BACHA, Marcia Simões Corrêa Neder – Artigo “O Desejo do Saber em Questão” Revista Educação – Edição Especial – Ano 1 Nº 1 - 2006
FREUD, Sigmund - "Obras Completas"
MRECH, Leny Magalhães - Psicanálise e Educação: Novos Operadores de Leitura – Pioneira - São Paulo, 1999.
VOLTOLINI, Rinaldo. Artigo “Pensar é Desejar” Revista Educação – Edição Especial – Ano 1 Nº 1 - 2006
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