Por Dirce Nunes Cestari
Professora e Psicanalista
“Quando nós olhamos alguém como deficiente dificilmente o sujeito consegue escapar deste olhar, passando a se ver e referenciar por este olhar”.( Maud, Mannoni)
Em linguagem psicanalítica, a inclusão de alunos deficientes nas escolas de ensino regular, especialmente na educação infantil, onde os conceitos de cuidar e “educar” passaram a ser tratados de modo integrado, é possível que numa concepção egocêntrica, narcisica e inconsciente, o indivíduo transfira suas responsabilidades para alguém que não ele próprio, validando seus preconceitos e estereótipos estigmatizados a partir de suas crenças.
Um olhar mais apurado, pode observar a postura de “negação” postulado em grande parte dos envolvidos (educadores, pais, familiares), com colocações do tipo:
• “Os professores não estão preparados para isso”.
• “A culpa é da família que não está nem aí”.
• “Os professores não estudaram pra isso”.
• “Eu não tenho condições de cuidar de crianças assim”.
• “A culpa é do governo que não dá condições para se desenvolver um bom trabalho”.
• “Eu não tenho condições para cuidar de meu filho; o governo não me ajuda”.
• “Meu filho foi discriminado pela escola”.
• “Pra que eu tenho que trazer meu filho todos os dias à escola se ele não tem condições de acompanhar a turma”?
• “Meu filho nunca vai sair disso”.
• “Eu não quero que meu filho atrapalhe o trabalho da escola”.
Observa-se nesses depoimentos uma “fala carregada” por mecanismos inconscientes de defesa do ego como resistência, negação, culpa, numa postura neurótico/obsessiva/compulsiva de transferir ou assumir responsabilidades.
Cuidar da criança é uma ação complexa que envolve diferentes fazeres de modo que ela satisfaça suas necessidades de diversos tipos e aprenda a fazê-los, adquirindo autonomia e ao mesmo tempo se sentindo segura, num ambiente formador de conceitos e valores que tenha como princípios: respeito mútuo, respeito pelas diferenças, solidariedade, e reciprocidade como prática determinante nas relações estabelecidas entre os participantes.
E a educação Inclusiva dá oportunidade não só ao aluno com necessidade especial, mas também às outras crianças ditas “normais”, pois convivendo com essas ditas “diferentes”, quebram as barreiras dos preconceitos e se envolvem num olhar solidário. Assim, desde pequenas têm a oportunidade de conviver com as diferenças num contexto de normalidade.
“Há na Educação Inclusiva e na perspectiva psicanalítica a introdução de um outro olhar. Uma maneira nova da gente se ver, ver os outros e ver a Educação. De se aprender a conviver com as diferenças, com as mudanças, com aquilo que está além das imagens. Uma maneira da gente apostar no outro”. (MRECH -1999)
Nessas circunstâncias observa-se o desenvolvimento gratificante daqueles que antes eram excluídos, pois agora, se sentindo aceitas e respeitadas não são mais submetidas ao desconforto da discriminação e segregação.
A Influência da Família no Comportamento do Aluno Inclusivo
O aluno com deficiência da faixa etária entre três à seis anos (educação infantil), é em geral submetido a dois tipos de acolhimento no seio familiar: são superprotegidos, ou são rejeitados.
Por excesso de zelo, alguns pais resistem em confiá-los totalmente aos cuidados da escola. Ficam inseguros em deixá-los com os professores e acabam por passar essa insegurança aos mesmos.
Em alguns casos mais extremos, subestimam suas capacidades e não se furtam da oportunidade de superprotegê-los, efetuando suas tarefas mais simples numa radical postura de excesso de cuidados. Acreditam que com isso estão compensando suas necessidades e poupando-os do “sofrimento” numa atitude de total abnegação e submissão.
Já outras famílias não se sentem capazes de superar a frustração e a dor causados pelo “sofrimento” de ter um filho deficiente e num gesto de negação transferem a responsabilidade de seus cuidados à escola ou à outras instituições competentes.
Justificam seus gestos alegando-se insuficientes para efetuarem com competência as responsabilidades inerentes à família, “condenando” a criança ao possível abandono num ato inconsciente de rejeição e fuga.
Numa abordagem psicanalítica, comportamentos dessa natureza, podem ser explicáveis considerando a teoria freudiana dos “Mecanismos de Defesa do Ego”(1923). onde defende que o ego precisa usar de certos mecanismos para aquietar o Id e absolvê-lo diante do julgamento do superego.
Para FREUD (1923), defesa é a operação pela qual o Ego exclui da consciência os conteúdos indesejáveis, para proteger o aparelho psíquico. O Ego mobiliza esses mecanismos, que dissimulam a percepção do perigo interno, em função de perigos reais ou imaginários localizados no mundo exterior.
Nos dois extremos a falta de equilíbrio provoca reações desfavorávies para a formação da personalidade do sujeito em questão. Em ambos os casos há um sofrimento latente: um pela submissão ou dominação e o outro pela rejeição (FROMM 1963 p43).
Na criança submissa, dominada, sufocada, pela supercompensação da família, é comum observar no desempenho das atividades inerentes a escola, comportamentos tais como: insegurança, desconfiança, baixa estima, egocentrismo (centrada no eu), dado a um condicionamento traçado por aquilo que a psicanálise traduz como IMAGO (Laplanche e Pontalis ps. 234/235)
Por outro lado na criança “rejeitada” observa-se comportamentos variados que vão desde agressividade, depressão, mutismo, desconcentração, desapego ou apego excessivo, dentre outros.
[...] “é preciso reconhecer que não há um ideal de família, mas famílias concretas que constituem diferentes ambientes e papéis para seus membros...dentre eles o cuidado e a educação dos filhos (Orientações Curriculares 2007 p25 ).
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
FREUD, Sigmund - Obras Completas "O Ego e o Id" (1923)- Edição Eletrônica -Editora Imago-Brasilia.
FROMM, Erich - Psicanálise da Sociedade Contemporânea - Biblioteca de Ciências Sociais – ZAHAR EDITORES – RJ – 1963.
MRECH, Leny Magalhães - Psicanálise e Educação: Novos Operadores de Leitura – Thomson Learning Ibero – 1999.
Secretaria Municipal de Educação (SME) – Orientações Curriculares: Expectativas de Aprendizagem e Orientações Didáticas para Educação Infantil – DOT 2007.
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